A vida de um professor universitário não é nada fácil. Não mesmo. Precisamos preparar e ministrar aulas, orientar alunos, realizar pesquisas de relevância internacional, administrar a máquina acadêmica e, ainda, divulgar o conhecimento científico para a sociedade – que, em última instância, financia nosso trabalho. São muitas responsabilidades. Mas a pergunta que fica é: somos realmente treinados e qualificados para desempenhar todas essas funções?
A resposta imediata é não. A entrada na carreira docente ocorre por meio de um concurso público, geralmente bastante concorrido. Dezenas de candidatos altamente qualificados disputam um espaço em um funil estreito, onde apenas um será aprovado – o famoso “the winner takes it all”. Os demais continuam na fila de espera ou desistem, mesmo depois de anos de dedicação à formação acadêmica. Mas o que faz um candidato se destacar em um concurso para professor universitário? O que é necessário para superar tantos concorrentes igualmente talentosos? Historicamente, a resposta tem sido: publicar mais e melhores artigos científicos.
A produção de artigos científicos é a principal métrica de sucesso na academia. Claro, damos aulas – e, geralmente, sobre temas que dominamos. Afinal, nossa carreira é de professor. No entanto, são os artigos científicos que impulsionam promoções, garantem bolsas e nos colocam em evidência no meio acadêmico. Por isso, é natural que a seleção de novos docentes se baseie, principalmente, nesse critério. Essa é a minha história – e a de muitos outros colegas –, ainda que tenhamos observado algumas mudanças nos últimos anos.
Curiosamente, embora a divulgação científica tenha pouco peso nas avaliações formais, ela é altamente valorizada dentro da própria comunidade acadêmica – muitas vezes, até mais do que a publicação de artigos científicos. Essa percepção ficou evidente em um estudo que realizamos com mais de 1.000 estudantes e professores de 300 instituições em 55 países (Singh et al., 2019). Os resultados mostraram que, independentemente da posição ocupada (aluno, professor ou pesquisador) ou do país de origem, a divulgação científica é vista como fundamental. No entanto, a falta de reconhecimento institucional ainda é apontada como o principal obstáculo para que mais acadêmicos se dediquem a essa prática.
No meu caso, trabalho com ecologia e meio ambiente, com foco em ecossistemas de água doce. Esses ambientes estão entre os mais afetados pelas atividades humanas e, ao mesmo tempo, são essenciais para nossa sobrevivência – seja como fonte de água e alimento, seja pelo papel que desempenham no controle climático local e no lazer. Portanto, compreender seu funcionamento e suas vulnerabilidades é crucial para a sociedade. E a divulgação científica tem um papel indispensável nesse processo. Mas, para isso, precisamos de comunicadores qualificados – e eu, como muitos outros professores universitários, me considero um iletrado nesse campo. O que fazer?
O blog do Laboratório de Limnologia tem se mostrado uma excelente ferramenta para suprir essa lacuna. Nele, utilizamos a linguagem escrita – que, felizmente, dominamos melhor do que outras formas de comunicação – para compartilhar nossas ideias e descobertas. Com textos curtos, diretos e acessíveis, buscamos levar ao público uma mensagem clara sobre temas relacionados (ou não) à ecologia aquática e à vida universitária. Surpreendentemente, em um mundo cada vez mais visual, conseguimos atrair leitores atentos e fiéis. Estamos satisfeitos com os resultados alcançados e empolgados com as possibilidades que este novo ano nos traz.
Leiam, comentem, critiquem. Este blog é de todos nós!
Foto: O professor Vinicius Farjalla e o aluno de mestrado Ricardo Catarina na Lagoa da Mata (Floresta Nacional de Carajás, PA) conversando sobre lagos amazônicos com alunos do ensino fundamental II de escolas públicas de Paraopebas, PA.
Referências
Singh GG, Farjalla VF, Chen B, Pelling AE, Ceyhan E, Dominik M, Alisic E, Kerr J, Selin NE, Bassioni G, Bennett E, Kemp AH, Chan KMA (2019). Researcher engagement in policy deemed societally beneficial yet unrewarded. Frontiers In Ecology and the Environment 17: 375-382. https://doi.org/10.1002/fee.2084